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Nenhuma voz basta

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Fernando Pessoa foi talvez o primeiro grande escritor moderno a compreender que o homem não abriga uma identidade, mas uma multidão interior. Há em cada consciência um pequeno parlamento de vozes, temperamentos, nostalgias e contradições que raramente chegam a acordo. Seus heterônimos nascem precisamente dessa fissura. Não são pseudônimos ocasionais, nem jogos literários de virtuosismo. Cada um possui biografia, respiração moral, cadência própria de olhar o mundo. Mudam as palavras porque antes delas muda a maneira de existir.Alberto Caeiro aparece primeiro, como uma claridade súbita em meio ao excesso de consciência do século. Magro, frágil, vivendo no campo, distante da erudição e das elegâncias intelectuais, ele entra na poesia portuguesa como alguém que jamais se reconciliou com a ideia de que as coisas precisem significar mais do que são. Enquanto a tradição ocidental inteira parecia escavar o universo em busca de símbolos ocultos — de Platão aos simbolistas, dos místicos aos psicanalistas — Caeiro abre a janela e devolve o mundo à superfície luminosa da evidência.Há uma árvore. Vento entre as folhas. Luz pousada sobre a tarde.Talvez essa nudez do visível bastasse, se o homem não tivesse desaprendido a olhar.Em O Guardador de Rebanhos, sobretudo nos poemas iniciais, percebe-se esse esforço quase impossível de restituir às coisas sua nudez primordial. Quando escreve:“O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!”,Caeiro não combate apenas o simbolismo literário; combate a compulsão humana de converter existência em alegoria. A árvore não deseja representar a vida. O rio não se oferece como metáfora do tempo. A flor não ambiciona transcendência. Há, nessa recusa da interpretação, algo de radicalmente moderno e, ao mesmo tempo, antiquíssimo — como se o poeta procurasse voltar a um estado anterior à divisão entre homem e natureza.É justamente aí que começa a melancolia secreta de Caeiro.Sua simplicidade não nasce da ingenuidade, mas da percepção dolorosa de que a simplicidade já foi perdida. Ele olha o mundo como quem tenta salvá-lo do excesso de pensamento. Em versos menos celebrados — “Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura” — reaparece o mesmo gesto de desalojar abstrações e limpar o olhar até que reste apenas a presença silenciosa das coisas.Ricardo Reis desconfiava dessa inocência luminosa, enquanto Álvaro de Campos certamente a invejaria. E talvez resida aí um dos grandes paradoxos de Pessoa: somente uma inteligência extraordinariamente sofisticada conseguiria inventar um poeta empenhado em desmontar a sofisticação.Se Caeiro representa a abertura para o exterior, Ricardo Reis entra na sala fechando devagar uma janela, como quem tenta devolver medida ao excesso.Tudo nele é contenção, equilíbrio, disciplina interior. Médico, latinista, monárquico expatriado, educado entre Horácio e os estoicos, Reis traz consigo a elegância moral de um mundo antigo que já sabe estar condenado. Sua poesia move-se entre jardins geométricos, mármores fatigados, rios lentos e deuses crepusculares. Onde Caeiro dissolve a metafísica, Reis procura domesticar a dor.Ele sabe que tudo passa: os corpos, os impérios, a juventude, os amores, as tardes de verão. Mas não transforma essa percepção em desespero. Há homens que gritam diante da ruína; Reis ajusta a postura.Existe nele um espírito profundamente romano — não a Roma triunfante das legiões, mas a Roma tardia dos homens que aprenderam a preservar dignidade mesmo quando já compreenderam que a derrota é inevitável. Quando escreve:“Colhe o dia, porque és ele”, não oferece apenas uma versão portuguesa do carpe diem. Há ali um paganismo melancólico, consciente de que o instante passa exatamente no momento em que tentamos retê-lo. Sua ética é uma ética da medida.Talvez por isso Ricardo Reis soe hoje discretamente subversivo. Vivemos numa época que transformou até o recolhimento em performance. A serenidade virou técnica de produtividade. O descanso converteu-se em ferramenta de rendimento. Até a meditação passou a ser administrada como investimento emocional. Reis observa tudo isso com a fadiga elegante de quem já desistiu de esperar profundidade do seu tempo. Não deseja reformar o mundo. Deseja apenas não se aviltar com ele.Em poemas como “Não queiras, Lídia, edificar no espaço”, percebe-se sempre essa pedagogia da renúncia serena. As rosas florescem já tocadas pela perda. O rio corre antes mesmo de ser plenamente contemplado. A sabedoria consiste precisamente nisso: não exigir eternidade daquilo que nasceu breve.Álvaro de Campos chega depois como um curto-circuito. Não entra na poesia: rompe-a por dentro. Engenheiro naval, cosmopolita, viajante nervoso, homem de cais, máquinas e quartos vazios, Campos parece sempre voltar de algum excesso que a alma humana não consegue absorver inteiramente. Nele tudo cresce depressa demais: o desejo, a velocidade, a lucidez, o entusiasmo, o tédio. Há qualquer coisa de febril em sua percepção do mundo, como se cada sensação viesse ligada diretamente ao sistema nervoso.Nas grandes odes futuristas — Ode Triunfal e Ode Marítima — a modernidade aparece como embriaguez elétrica. Motores, fábricas, turbinas, navios, engrenagens, vapor: Campos deseja fundir-se às máquinas como se o corpo humano fosse estreito demais para suportar a intensidade do universo moderno. Há ali um entusiasmo quase erótico pelas máquinas, pelo ruído e pela vertigem do progresso.O gênio de Pessoa, contudo, é complexo demais para permanecer cativo do futurismo por muito tempo.O entusiasmo de Campos logo começa a rachar por dentro.Nenhum poema em língua portuguesa captou tão profundamente a falência interior do homem moderno quanto Tabacaria. Ali resta apenas um homem à janela, diante de uma tabacaria banal, esmagado pela própria consciência. “Não sou nada.Nunca serei nada.Não posso querer ser nada.”A frase fere porque ultrapassa o fracasso biográfico. Não se trata de carreira, dinheiro ou reconhecimento. Trata-se da impossibilidade de coincidir consigo mesmo. O sujeito moderno tornou-se demasiado vasto por dentro e insuficiente diante da vida concreta.Em Aniversário, a dor muda de direção. A infância surge como o último território onde existir ainda parecia inteiro. Não há sentimentalismo ali. Há luto metafísico. Campos percebe que crescer significa tornar-se irremediavelmente dividido.É difícil ler Campos hoje sem reconhecer nele alguma coisa do nosso próprio cansaço. O século XXI realizou muitas de suas obsessões: a velocidade nervosa, o excesso de estímulos, a hiperconectividade e a fadiga emocional. Sob a ótica contemporânea, a sensibilidade de Campos espelha a nossa necessidade incessante de experimentar estímulos em série para preencher um vazio que retorna logo em seguida. O nosso tempo realizou também sua ruína, porque Campos queria viver tudo — e a atualidade parece exigir exatamente isso, o tempo inteiro, até a exaustão.O mais próximo de nós hoje não é sequer Campos, mas Bernardo Soares, o semi-heterônimo do Livro do Desassossego. Homem de escritório, habitante da fadiga, observador de ruas anônimas, Soares já não explode como Campos nem contempla como Caeiro. Nele, a modernidade desgasta-se lentamente. A vida transforma-se em névoa administrativa, em cansaço sem acontecimento, em interioridade burocrática. Se Campos é a febre do mundo moderno, Bernardo Soares é sua insônia.No fundo, os heterônimos de Pessoa não discutem apenas literatura. Discutem maneiras de suportar a existência.Caeiro parece sussurrar: olha.Reis responde: contém-te.Campos implora: arde.Soares murmura: sonha, mesmo sem esperança.E Fernando Pessoa, silencioso atrás deles, talvez tenha compreendido algo ainda mais perturbador: nenhuma dessas respostas basta sozinha.Talvez por isso tenha acabado precisando criar todos.Porque o ser humano não nasceu para caber inteiro numa única voz. Nem mesmo o Pessoa ortônimo — mais íntimo, mais indecifrável, habitante de uma melancolia sem personagem definido — conseguiu permanecer inteiro.O grande drama de Pessoa nunca foi a capacidade de inventar heterônimos. Foi perceber que nenhuma voz conseguiria salvá-lo inteiramente.Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça do MPMT

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Fonte: Ministério Público MT – MT

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Encontro debate direitos de crianças e adolescentes em MT

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Cuiabá sediará, nos dias 18 e 19 de maio, o 1º Encontro dos Direitos e Garantias Fundamentais de Crianças e Adolescentes na Perspectiva Nacional e Internacional e o 5º Encontro Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Mato Grosso. Realizado no Auditório da Sede das Promotorias de Justiça da Capital, o evento reunirá especialistas e autoridades para debater a efetivação dos direitos infantojuvenis, a partir do ordenamento jurídico brasileiro e de experiências nacionais e internacionais.Promovida pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), em parceria com o Poder Judiciário e a Faculdade Autônoma de Direito (Fadisp), a iniciativa é voltada a membros do Ministério Público, magistrados, servidores públicos, agentes da infância e juventude, conselheiros tutelares, profissionais da rede de proteção e demais interessados na temática.A programação terá início no dia 18 de maio, no período da manhã, com credenciamento, composição da mesa de honra e apresentação artística do Instituto Flauta Mágica. A palestra de abertura será realizada às 10h, com o tema “Teoria do Cuidado: Afetividade, famílias e direito”, ministrada pelo procurador de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) Sávio Renato Bittencourt Soares Silva. A mesa será presidida pelo procurador de Justiça Paulo Roberto Jorge do Prado, titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Criança e do Adolescente do MPMT, e contará como debatedores com o juiz auxiliar da Presidência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) e coordenador da Coordenadoria da Infância e Juventude (CIJ) de Mato Grosso, Túlio Duailibi Alves Souza, e com a juíza da 1ª Vara Especializada da Infância e Juventude de Cuiabá, Gleide Bispo Santos.
No período vespertino, às 14h, será realizada a palestra “Responsabilidade do Poder Judiciário e do Ministério Público na criação, implantação e execução do Serviço de Família Acolhedora (SFA) no Estado de Mato Grosso, frente à Recomendação Conjunta nº 02/2024”, ministrada pelo promotor de Justiça Nilton César Padovan, titular da 2ª Promotoria de Justiça Cível de Sinop e coordenador do Centro de Apoio Operacional (CAO) da Infância e da Juventude do MPMT. A mesa será presidida pela juíza da 2ª Vara Cível de Tangará da Serra, Raiza Vitória de Castro Rego Bastos Gonzaga, com debates conduzidos pela promotora de Justiça Daniele Crema da Rocha de Souza, titular da 19ª Promotoria de Justiça Cível de Cuiabá, e pelo promotor de Justiça Paulo Henrique Amaral Motta, titular da 14ª Promotoria de Justiça Cível da Capital.Ainda no dia 18, às 16h, ocorre a palestra “Os crimes digitais e cibernéticos que envolvem crianças e adolescentes”, ministrada pelo professor Enrique Jesús Martínez Pérez, professor titular de Direito Internacional da Universidade de Valladolid, na Espanha. A mesa será presidida pelo desembargador Márcio Vidal, diretor-geral da Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis), e terá como debatedores o coordenador-geral dos Cursos de Direito da Unialfa/Fadisp, Lauro Ishikawa, e a juíza auxiliar da Vice-Presidência do TJMT Alethea Assunção Santos.A programação do dia 19 de maio terá início às 8h30, com a palestra “ECA Digital e Proteção Online: a vulnerabilidade digital das crianças e adolescentes”, conduzida pela promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo (MPSP) Renata Lúcia Mota Lima de Oliveira Rivitti. A mesa será presidida pelo juiz da 1ª Vara de Cáceres, Ítalo Osvaldo Alves da Silva, e contará como debatedores com o juiz da 1ª Vara de Chapada dos Guimarães, Leonisio Salles de Abreu Junior, e com a promotora de Justiça da 4ª Promotoria de Justiça Cível da Comarca de Rondonópolis e coordenadora-adjunta do CAO de Educação, Patrícia Eleutério Campos Dower.Na sequência, às 10h, será apresentada a palestra sobre o Programa Novos Caminhos, iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) voltada à promoção do acolhimento familiar e à garantia do direito de crianças e adolescentes à convivência familiar e comunitária. A exposição será conduzida pela juíza auxiliar da Corregedoria Nacional de Justiça, Cláudia Catafesta. A mesa será presidida pela juíza auxiliar da Corregedoria-Geral da Justiça de Mato Grosso (CGJ-MT) Anna Paula Gomes de Freitas, e contará como debatedores com o juiz da Vara Especializada da Infância e Juventude de Várzea Grande, Tiago Souza Nogueira Abreu, e com a promotora de Justiça Mariana Batizoco Silva Alcântara, titular da 1ª Promotoria de Justiça Cível de Pontes e Lacerda.No período da tarde, a programação prossegue com a palestra “Recrutamento de adolescentes por facções criminosas: prevenção e enfrentamento”, ministrada pelo promotor de Justiça do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) João Batista de Oliveira. A mesa será presidida pelo juiz da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, Jean Garcia de Freitas Bezerra, com debates a cargo do juiz da 2ª Vara Cível de Lucas do Rio Verde, Ricardo Nicolino de Castro, e da promotora de Justiça Laís Liane Resende, da 2ª Promotoria Cível de Tangará da Serra.O evento será encerrado às 16h, com a palestra internacional “Guarda e direito de visitas: os direitos das crianças em contextos de violência de gênero”, apresentada pelos professores Javier García Medina e Cristina Guilarte Martín‑Calero, da Universidade de Valladolid, na Espanha. A mesa será presidida pelo professor Enrique Jesus Martinez Perez, e terá como debatedores a desembargadora do TJMT Helena Maria Bezerra Ramos, membro da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja), e o promotor de Justiça da 27ª Promotoria de Justiça Criminal de Cuiabá, Rinaldo Ribeiro de Almeida Segundo.Saiba mais – O encontro é uma iniciativa conjunta do MPMT, por meio da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Criança e do Adolescente e do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (Ceaf); do Poder Judiciário, por meio da Esmagis, da Escola dos Servidores, da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) e da Coordenadoria da Infância e Juventude (CIJ); e da Faculdade Autônoma de Direito (Fadisp), com apoio da Fundação Escola de Ensino Superior do Ministério Público (FESMP‑MT).Para participar é preciso se inscrever gratuitamente aqui. As vagas são limitadas.

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Acesse a programação completa aqui.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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